Uma ideia sobre o fim do mundo – 4:44 Last Day on Earth + Estado de Sítio

Escrevi este texto há um ano e meio atrás, com a intenção de publica-lo na Revista Interlúdio. Na época acabou não entrando pelo período que a revista passava, e o fato do filme do Ferrara não ter dado sinais de estreia. Atualmente se encontra ele facilmente tanto nos melhores fóruns de torrent quanto em serviços tipo Netflix, assim como Estado de Sítio está no YouTube. Na íntegra, sem mexer em nada do texto original.

Uma ideia sobre um fim do mundo

4:44 Last Day on Earth, Abel FERRARA (2011)

Estado de Sítio, Leonardo AMARAL, Samuel MAROTTA, Gabriel MARTINS, Maurílio MARTINS, André NOVAIS OLIVEIRA, Leo PYRATA, Flávio C. von SPERLING e João TOLEDO (2011)

O fim do mundo é uma das peças de representação que o cinema reimagina com grande frequência. No entanto, é mais comum vermos contos apocalípticos que criam uma ideia do que seria o mundo pós os eventos, geralmente frutos de epidemias ou eventos fantásticos, separando ou recriando uma sociedade com os sobreviventes. Recentemente tive a oportunidade de encontrar estes dois filmes, díspares tanto na experiência como na relevância canônica de seus autores, mas que, no entanto, possuem um olhar sobre o fim do mundo com incontáveis pontos de contato.

Antes de discuti-los, é bom falar mais sobre o conceito do apocalipse e sua constante retomada. Porque isso, me parece, é cada vez mais um objeto de criação, especialmente nas mãos de cineastas que evidenciam sua formação cinéfila, como o caso do Estado de Sítio e seus autores mineiros. E também é o caso, veja só, de roteiros que o crítico aqui escreveu, ainda sem leva-los as telas. E é interessante observar que embora o Estado de Sítio anuncie o fim do mundo para depois apenas lança-lo como uma sombra sobre os personagens, a abordagem que o filme dá ao tema é extremamente similar a que eu intento, mesmo que meus roteiros imaginem uma dimensão pós-apocalíptica. Em ambos, o que surge é uma tentativa, obviamente fadada ao fracasso, de sociedade utópica e autoconsciente. Já no 4:44 Last Day on Earth de Ferrara, estamos diante de um olhar muito mais frontal do que no dos cineastas mineiros. Frontal porque o mau do mundo é incontornável. Não se oferece saídas, mesmo que os personagens do outro filme tenham de fato a consciência de que não irão escapar, a eles cabe o gozo dos momentos que lhe restam. Ao personagem de Willem Dafoe, Cisco, resta apenas o desespero: o sentimento de não poder mais ter qualquer controle sobre o mundo.

O Estado de Sítio apresenta o caminho inverso do road movie americano, que eternamente será fonte de criatividade para os cinemas novos. Aqui, a estrada, a continuidade, está atrás do carro no início do filme, para não mais ser visto – acompanhado das chamadas no rádio, nos informando que o fim do mundo se aproxima. Os personagens se esgotam ao fim do filme, sentados aguardando o nada, no momento em que desfrutam de suas últimas cervejas, num destes momentos típicos do filme-de-galera. No entanto, é uma imagem quase melancólica, se tivesse alcançado mesmo sua potencia maior.

A trajetória de Ferrara não é diferente em sua introdução, ao poluir o filme com seu bunker – que deve ser a morada de Abel –; um loft, cheio de formas brutas de arte e acima de tudo de informações brotando de TVs, computadores, celulares e afins. Todos ligados ao mesmo tempo, ecoando noticias de diversas formas e apresentando líderes de todos os tipos de filosofias discursando sobre o que virá. Mas não vemos um caminho a ser deixado como o visto no filme anterior, há apenas a angústia da impotência – a imagem então que Ferrara busca ao longo do filme. Enquanto Cisco anda pelo apartamento, tenta contato com pessoas pelo Skype, observa uma NY que parece seguir seu rumo natural, embora de forma entristecida pelo olhar de Ferrara, ele vai progressivamente tentando lutar contra si mesmo, quase não se contendo em si. Em dado momento, sai pelas ruas, após brigar com a esposa, e permite a si um último delírio nova iorquino. Vê muitas daquelas figuras caídas pelos becos que já vimos antes na obra de Ferrara, no entanto Cisco já não consegue andar entre eles com a mesma naturalidade. Tenta suplicar ao seu velho amigo, o traficante, para que lhe dê um último alívio. Ele tenta, mas não é capaz, porque Ferrara jamais permitiria ao filme uma fuga deste porte àquilo que ele lhe obstinou buscar. O filme irá testemunhar, a sua forma, a sua imagem, um fim do mundo, e seu personagem estará ali, sem a possibilidade de se esquivar do mau do mundo.

Em ambos os filmes observamos um mundo que não para de se mover diante do momento do apocalipse – como se eles aguardassem ali que, de repente, as coisas não acontecessem. Ou talvez porque sejam mesmo zumbis, seguindo sua rotina. A segunda ideia cabe mais no Ferrara, onde vemos Nova York no seu dia-a-dia comum, através do apartamento de Cisco. Há ainda o entregador, um garoto chinês, trabalhando normalmente ao entregar o jantar do casal – embora, de fato, ele tenha direito a seu momento despedida em cena. Mas há um lado esquisito, de um caminhar realmente morto-vivo aos seus personagens não-centrais.

No Estado de Sítio, embora tenhamos os planos longos onde os personagens parecem devorados pelo nada, os personagens centrais possuem brilho, e se aparentam estar de fato caminhando para o fim do mundo, não se debatendo contra isso como lá no Ferrara, não os chamaria de personagens sem vida. Eles a tem – enquanto puderem beber. No entanto, vemos no filme um ir e vir dos personagens, talvez ajudado pela falta de um ponto de vista que o filme passa – ele conquista isso em algumas sequências, apenas para abandona-lo em seguida – que parece imerso num novo tipo de cotidiano, não muito diferente das ruas do Ferrara. E vemos aquela sequência em que os meninos recebem a visita das moças para uma diversão coletiva, em que observamos as garotas de programa trabalhando tal qual o garotinho do filme do Ferrara.

Diante de estilos diferentes de composição deste evento único, fica a sensação de que o filme de Ferrara soa tão simples quanto a mínima produção do coletivo de Minas. Simples porque o caos, o animalesco, esta sua força habitual, está presente da forma mais contida, ‘calma’, sem tanto peso como ao que foi visto antes em outros filmes de Abel Ferrara. Um cineasta de alma marginal desde sempre, esse talvez seja seu filme mais rústico, pequeno em aparência. Se o Estado de Sítio é, evidentemente, um filme de núcleo, uma declaração de amizade e parceria de seus cineastas, é também uma tentativa rara e necessária no cinema brasileiro de se encenar algo tão brutal. Falta ao filme um olhar mais forte, mais presença – e este incontornável olhar frontal de Abel.

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